Como se proteger de uma fraude? Esta é a pergunta que muitas associações de proteção veicular vêm se fazendo, justamente num momento de crescimento do setor no país. Opção acessível aos proprietários de veículos em comparação com os seguros convencionais, essas organizações enfrentam agora o que pode ser o desafio mais difícil: impedir ou até mesmo eliminar as ações de fraudadores que tentam receber indenizações de uma ou mais associações ao mesmo tempo.
E a resposta para este problema pode estar no compartilhamento das informações. Isso porque as associações ainda não possuem uma base de dados para se protegerem. As seguradoras, por exemplo, contam com o Registro Nacional de Sinistros de Automóveis (RNS Auto), uma base de dados unificada, desenvolvida pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), que integra uma fatia considerável das empresas do setor. A partir da solução, a eficácia no combate às fraudes avançou. "O grande problema é que, no caso das associações, cada uma ainda está agindo por si", alerta Gustavo Rocha, diretor-executivo da Gestão Segura.
Por isso, a empresa criou o Evidência360 — também chamado de E360 —, um sistema que oferece um ambiente para circulação de informações entre as associações de proteção veicular. O E360 tem a capacidade de fazer uma varredura, por exemplo, no histórico de sinistros a que cada associado recorreu entre as empresas interligadas ao sistema desenvolvido pela Gestão Segura.
"Precisamos mudar essa cultura entre as associações de restringir a circulação dos dados, como se a abertura das informações fosse um perigo para a organização. O combate à fraude na proteção veicular não pode acontecer de maneira isolada. Enquanto cada associação mantiver suas informações restritas à própria operação, fraudadores continuarão encontrando espaço para repetir práticas e provocar prejuízos em diferentes organizações. O Evidência360 nasce para fortalecer a proteção patrimonial mutualista e tornar o mercado mais seguro, profissional e sustentável para as associações e, principalmente, para o consumidor", aponta Gustavo Rocha.
O E360, explica Thiago Cascão, head comercial da Gestão Segura, tem a mesma lógica do RNS Auto. A base de dados é alimentada pelas próprias associações participantes, transformando registros individuais em uma fonte coletiva de inteligência. "Embora o E360 seja uma solução independente, desenvolvida especificamente para as características da proteção patrimonial mutualista, sua proposta parte de um princípio semelhante: quanto mais qualificadas e conectadas forem as informações do mercado, menor será o espaço para fraudes e decisões tomadas sem evidências suficientes", detalha.
Para o diretor da Gestão Segura, os resultados do E360 irão crescer à medida que novas organizações se incorporarem à base da plataforma. Isso tende a dinamizar as comunicações relacionadas a sinistros, inconsistências, suspeitas e tentativas de golpes. "O setor segurador compreendeu há muito tempo que uma empresa isolada possui uma visão limitada do risco. O compartilhamento responsável de informações permite enxergar comportamentos e ocorrências que dificilmente seriam identificados dentro de uma única operação. O E360 nasce para construir essa inteligência também entre as associações", acentua Thiago Cascão.
"O fraudador compartilha estratégias, conhece as fragilidades das operações e testa o mesmo comportamento em organizações diferentes. Enquanto isso, muitas associações ainda trabalham com bases desconectadas. Precisamos inverter essa lógica: o mercado também precisa aprender a compartilhar inteligência e, assim, proteger quem cumpre as regras da própria associação", afirma Cascão.
Autonomia das associações
Mas qual o impacto das informações sobre as tomadas de decisão da associação? O head da Gestão Segura garante que o Evidência360 não tem poder decisório diante de uma conferência negativa do associado. A plataforma, segundo ele, organiza informações, apresenta evidências, indica pontos de atenção e gera elementos de apoio, mas a decisão permanece sob responsabilidade da entidade, de acordo com seus regulamentos, processos internos e critérios de análise.
"O objetivo não é criar uma lista de pessoas impedidas de participar de uma associação. O objetivo é oferecer informações para que as entidades tomem decisões mais conscientes, fundamentadas e coerentes. Um alerta exige análise e não representa, por si só, uma conclusão", pondera Thiago Cascão.
Mas, para Gustavo Rocha, o impacto do Evidência360 vai além da decisão de cada associação isoladamente. "Informação isolada protege uma operação. Informação compartilhada pode proteger um mercado inteiro. O setor de proteção veicular só vai se fortalecer quando entender isso", finaliza o diretor-executivo.