Calor mais intenso que o normal para a época e temporais com grandes volumes de chuva e vento são esperados até o final do ano por causa do El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento das águas do oceano Pacífico que interfere no clima global. Neste ano, porém, o aquecimento global e os eventos climáticos extremos já em curso devem potencializar o fenômeno a ponto de já ser chamado de "Super El Niño", trazendo problemas de saúde, risco de enchentes e deslizamentos de terra em áreas historicamente sujeitas a esse tipo de ocorrência. Diante do cenário, o governo do Estado lançou um plano de enfrentamento, e prefeituras da região do ABC mobilizam suas estruturas para lidar com a situação. A imprevisibilidade do tempo também promete causar danos às lavouras e encarecer os alimentos.
Em Diadema, o El Niño vai colocar à prova o CMEC (Centro Municipal de Emergências Climáticas), implantado em agosto. "Coordenado pela Secretaria de Meio Ambiente em conjunto com a Defesa Civil, o CMEC elaborará o Plano de Ação Climática (PANClima), definindo protocolos de alerta, acionamento e proteção a grupos vulneráveis. A Defesa Civil mantém monitoramento permanente das áreas de risco, com prioridade às comunidades mais expostas", explica a prefeitura, que também vai monitorar a população em situação de vulnerabilidade, especialmente por meio do Centro POP, do Serviço Especializado em Abordagem Social e dos centros de acolhida destinados a pessoas em situação de rua.
"O Centro POP e os centros de acolhida permanecem como pontos de referência para atendimento, hidratação, alimentação, higiene, proteção social e demais encaminhamentos necessários. A distribuição de água é intensificada conforme os alertas de altas temperaturas e as demandas identificadas pelas equipes nos territórios. O município realiza a Operação Altas Temperaturas, com atuação integrada entre as secretarias. No âmbito da Assistência Social, a operação prevê a intensificação das abordagens nas ruas, a orientação sobre os riscos da exposição prolongada ao calor, a distribuição de água e o encaminhamento aos serviços socioassistenciais, especialmente nos locais de maior concentração de pessoas em situação de rua. Além disso, a prefeitura mantém pontos de abastecimento e bebedouros em todos os parques e equipamentos públicos", detalha a administração diademense.
Para minimizar os problemas em áreas de risco, o Paço de Diadema afirma realizar monitoramento contínuo, mas não informou quantas áreas estão nessa condição, seja de risco de enchente, seja de deslizamento. "A Secretaria de Infraestrutura Urbana e a de Obras realizam manutenção preventiva sistemática de galerias, bocas de lobo, canais e estruturas de contenção, bem como gestão de vegetação com poda e supressão de árvores em situação de risco, próximo a moradias e rede elétrica. Em situações emergenciais, há o acolhimento de famílias em risco, direcionamento a abrigos temporários. A Prefeitura reafirma a atuação antecipada, integrada e técnica para mitigar impactos do El Niño e proteger a população de Diadema", diz a administração municipal. Em caso de emergência, a população pode acionar os telefones 199 (Defesa Civil), 192 (Samu) e 193 (Bombeiros).
Nas escolas, o calor afeta a atenção dos alunos. Diadema informa que as 61 escolas municipais contam com ventiladores e laboratórios de robótica, informática e sensoriais, e que as salas dos professores têm ar-condicionado.
Em Santo André, a prefeitura implantou a Rede Cidadã de Monitoramento Climático, que convida moradores a contribuir voluntariamente com a coleta de informações sobre chuva e temperatura em diferentes regiões da cidade. Até o momento, 28 aparelhos já foram instalados. Os participantes recebem pluviômetros e termômetros manuais para instalar em suas residências, além de orientações para a realização das medições diárias e o envio das informações, o que gera diagnósticos por bairro.
Os dados territoriais servem como ferramenta de planejamento urbano de longo prazo e para o aprimoramento das ações de prevenção e resposta a eventos climáticos severos. Segundo Brunessa Davide, encarregada de Monitoramento Climático da cidade, "a Rede Cidadã de Monitoramento aproxima a Defesa Civil da população e reforça que a prevenção também se constrói com a participação dos moradores. Quanto mais pessoas participarem, mais detalhada será a nossa leitura das condições climáticas nos diferentes territórios, contribuindo para um acompanhamento mais próximo da realidade de Santo André."
Quem quiser integrar a Rede Cidadã de Monitoramento Climático pode se cadastrar pelo site da Defesa Civil (https://portais.santoandre.sp.gov.br/defesacivil/rede-cidada-de-monitoramento-climatico/). Após o registro, a equipe entra em contato com os interessados para orientar sobre as próximas etapas e a possibilidade de instalação dos equipamentos.
A Prefeitura de São Bernardo lançou nesta semana a atualização do PMRR (Plano Municipal de Redução de Riscos) da cidade, iniciativa que representa um avanço estratégico para as políticas públicas de prevenção e enfrentamento de ocorrências em áreas suscetíveis a desastres. Mais do que um documento técnico, o plano é uma ferramenta de planejamento que permite ao município conhecer com maior precisão a realidade do território, identificar áreas prioritárias e orientar a aplicação de recursos em ações capazes de reduzir efetivamente os riscos para a população. A atualização é conduzida pelo Grupo de Trabalho Intersecretarial de acompanhamento do plano, em parceria com o Serviço Geológico do Brasil, o Ministério das Cidades e o Ministério de Minas e Energia.
O planejamento ganha ainda mais relevância diante da previsão de R$ 75 milhões em investimentos, por meio de parceria com o Governo Federal, destinados a ações de redução de riscos em localidades como Vila São Pedro, Cafezal e Montanhão, o que deve beneficiar mais de 5 mil famílias. "A atualização do plano possibilitará que esses recursos sejam direcionados de maneira mais estratégica, priorizando as intervenções necessárias e contribuindo para que os investimentos estejam alinhados às necessidades identificadas no território", afirma a secretária de Habitação de São Bernardo, Ruth Cristina Ramos.
"O Plano Municipal de Redução de Riscos não é apenas um levantamento da situação existente. Ele é um instrumento que pauta a política de redução de riscos, dando suporte técnico às decisões do poder público e ajudando a transformar o conhecimento sobre o território em ações concretas", complementa Marcos Cayres, coordenador da Defesa Civil da cidade.
As chuvas acima do previsto para a primavera e o verão, somadas ao calor fora da média e a períodos de seca esperados durante o El Niño, devem afetar lavouras, reduzir a oferta de produtos e, consequentemente, pressionar os preços de verduras, legumes e frutas no período. Segundo o engenheiro agrônomo Fábio Vezzá de Benedetto, da Craisa (Companhia Regional de Abastecimento Integrado de Santo André), há pouco que o consumidor possa fazer para se precaver, já que produtos perecíveis não podem ser estocados. Para ele, o El Niño que se aproxima deve ser pior do que os ocorridos em anos anteriores por causa do aquecimento global, o que deve intensificar tanto o calor quanto as chuvas de grande intensidade, prejudicando a safra de alimentos de grande escala, como arroz, feijão, milho e cana-de-açúcar, além das lavouras produzidas mais localmente, como verduras, legumes e algumas frutas. Tanto a seca quanto o excesso de chuva podem afetar a oferta e, por consequência, o preço dos produtos.
"O arroz, por exemplo, se planta agora para colher no final do verão e pode ser afetado por inundações e seca, porém é um produto que pode ser estocado e transportado por longas distâncias. O mesmo com o feijão e o milho. Já quanto às frutas, hortaliças e legumes, consumimos o que é produzido no cinturão verde da Grande São Paulo. É uma situação de difícil solução a curto prazo, uma ideia seria termos mais hortas na área urbana, como as hortas comunitárias, evitando a dependência do que vem de áreas produtoras e que podem ser atingidos pela seca ou excesso de chuva, mas quase não se vê hortas em áreas urbanas", analisa Benedetto.
Enquanto feijão, milho e arroz podem ser estocados para consumo ao longo do ano, verduras, legumes e frutas tendem a sofrer mais caso as áreas produtoras sejam afetadas pelo clima desfavorável. "A chuva pesada danifica e a qualidade cai. A produção de alface, por exemplo, vem do cinturão verde, perto da região metropolitana, porque é um produto que não aguenta estoque nem transporte de longa distância. Se a lavoura for afetada, automaticamente na feira o produto vai subir de preço ou mesmo sumir das barracas", diz o engenheiro agrônomo.
Para Benedetto, os governos deveriam se debruçar mais sobre as mudanças climáticas. "Isso está mais do que provado pela ciência, e desde 2012 até mesmo a população já tem sentido a mudança no clima e a influência disso na produção de alimentos, por isso penso que os governos deveriam se debruçar mais sobre isso", completa o engenheiro agrônomo da Craisa.
Fontes: Prefeitura de Diadema; Prefeitura de Santo André / Defesa Civil de Santo André (Brunessa Davide, encarregada de Monitoramento Climático); Prefeitura de São Bernardo (Ruth Cristina Ramos, secretária de Habitação; Marcos Cayres, coordenador da Defesa Civil); Craisa (Companhia Regional de Abastecimento Integrado de Santo André) (Fábio Vezzá de Benedetto, engenheiro agrônomo).