“Antes de decidir o que uma pessoa autista consegue fazer, dê a ela a oportunidade de experimentar.” A frase do adolescente Guilherme Faci, 13 anos e autista de nível suporte 1, foi o momento que causou mais emoção durante a ‘Oficina Inclusiva com Famílias – Projeto Cidade pra Frente que é pra Gente’, realizada na tarde desta terça-feira (22/9). O recado tem relação direta com uma das atividades do encontro, encerrado com uma oficina coletiva na qual todos os presentes participaram da construção de uma maquete representando a cidade dos sonhos de cada um.
Realizada no Plenarinho da Câmara Municipal, a ação é parte da Semana da Pessoa com Deficiência, iniciativa da Secretaria de Direitos da Pessoa com Deficiência e TEA (SDPD), que preparou programação diversa até o próximo domingo (27/9), como oficinas lúdicas, atividades culturais e esportivas. As atividades estão relacionadas à comemoração ao Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência, celebrado no dia 21 de setembro, data em que foi realizado o Feirão da Empregabilidade PCD, evento organizado pela CTR+ (Central de Trabalho e Renda +) e que marcou a abertura da programação.
O segundo dia foi reservado para a ‘Oficina Inclusiva com Famílias’, que reuniu em torno de 50 pessoas no Plenarinho da Câmara para atividades como contação de história, depoimentos de cinco convidados, entre os quais Guilherme, e a construção da ‘cidade dos sonhos’ usando caixas de pizza. Ao lado do secretário de Direitos da Pessoa com Deficiência e TEA, Estevão Camolesi, o garoto de 13 anos e outras quatro convidadas foram chamados para dar seus depoimentos.
“A gestão do prefeito Marcelo Lima tem uma diretriz muito clara: o governo quer incluir de verdade e quer ouvir a voz de cada pessoa. Queremos eliminar barreiras físicas e atitudinais em toda a cidade, e essa construção só é possível com a união entre o poder público e a nossa comunidade, pois acreditamos que a verdadeira inclusão se faz com escuta ativa, portas abertas e valorização da cidadania, construindo políticas públicas lado a lado”, pontuou o secretário.
SUPERAÇÃO - Estudante do 7º ano do Ensino Fundamental, Guilherme passou por sete escolas nos seus poucos anos de vida, superou adversidades, foi selecionado entre alguns concorrentes e se tornou protagonista do curta-metragem brasileiro ‘Eu, Léo’, escrito e dirigido por Ricardo Cioni Garcia. A mãe, a educadora Márcia Viana Faci, aponta que o desempenho do filho surpreendeu, inclusive porque ele foi alfabetizado ‘tarde’ (por ela mesmo) e no filme teve de interpretar um autista de nível suporte 3.
Agora, artista de um filme que concorre a prêmios e mais seguro, Guilherme conquistou também o direito de falar em nome dos autistas e da inclusão. “Meu nome é Guilherme. Sou autista. Tive a oportunidade de conhecer o cinema por dentro e participar de um filme. Foi uma experiência importante para mim, e gostaria que outros jovens autistas também pudessem conhecer lugares e profissões a partir das coisas de que gostam. Minha ideia para a cidade é essa: antes de decidir o que uma pessoa autista consegue fazer, dê a ela a oportunidade de experimentar”, discursou. Palavras que causaram emoção e lágrimas na plateia.
CONSTRUINDO PONTES - O curta-metragem aborda o autismo e o universo das famílias atípicas. A narrativa mostra os desafios, as conquistas e as potencialidades de Léo, além de retratar o encontro e o acolhimento entre colegas surdos, promovendo uma reflexão profunda sobre empatia, diversidade e a quebra de barreiras no ambiente escolar e social. E a atividade desta terça-feira tinha como foco justamente a quebra de barreiras e a construção de pontes como pontos fundamentais na implementação de políticas públicas que tornem as cidades cada vez mais inclusivas.
“O que a gente percebe em eventos como esse é que a inclusão é um caminho que vai ter desafios, mas é ouvindo que o poder público consegue enxergar as potencialidades da cidade e acolher as demandas das pessoas com deficiência”, avaliou a secretária adjunta de Direitos da Pessoa com Deficiência e TEA, Joyce Quintino.
A educadora Márcia, que durante 20 anos atuou como consultora de RH e se viu obrigada a mudar o curso da trajetória profissional para cuidar do filho, inclusive da alfabetização do garoto – as escolas por onde passou não estavam preparadas -, há 10 anos começou a dar aulas. Destes, quatro dedicados a lecionar para alunos do 4º do Ensino Fundamental na EMEB Benedito José de Morais, no Jardim Silvina, justamente sua unidade no momento. A dedicação dela foi fundamental para a evolução do Guilherme, mas ela viu novos momentos após a participação dele no filme: a autoestima melhorou e está mais confiante.
“Para mim, como mãe, ver o Guilherme participando de momentos como esse é muito emocionante e tem um significado enorme. Mais do que estar presente, é muito importante que ele tenha espaço para ser ouvido, para se expressar e para mostrar quem ele é", afirmou. "A voz do Guilherme importa. O que ele pensa, o que ele sente, o que ele gosta e a forma como ele enxerga o mundo também precisam ocupar esses espaços. E é justamente aí que eu vejo a verdadeira importância da inclusão”, comentou Márcia, também mãe de Giovana, 11 anos.
“Cada oportunidade como essa ajuda o Guilherme a ganhar confiança, autonomia e segurança. E também ajuda as pessoas a enxergarem que, por trás do diagnóstico, existe uma pessoa com personalidade, sentimentos, sonhos, vontades e muito a contribuir. Fico muito feliz em ver o Guilherme conquistando esses espaços e tendo a oportunidade de falar por si mesmo. Porque, durante muito tempo, outras pessoas falaram pelas pessoas com deficiência. Hoje, o que queremos é que elas possam falar por si, sejam ouvidas e tenham suas vozes valorizadas”, completou Márcia.
PROGRAMAÇÃO DA SEMANA PCD
26/9 - Balada Inclusiva e Feira de Empreendedorismo – A primeira Balada Inclusiva de São Bernardo terá como tema os anos 80 e contará também com feira de empreendedorismo com mães atípicas. Será realizada no hall da Câmara Municipal, das 14h às 20h. Os interessados em participar devem se cadastrar pelo telefone 2630-4497.
27/9 - Jogo de Futsal Down – Partida amistosa no CREC da Vila São Pedro, das 8h às 10h. O ginásio fica na Rua Santo Antônio, 300, na Vila São Pedro.