

Profº André Luiz Especialista em meio ambiente e sustentabilidade
SÃO BERNARDO DO CAMPO – Os eventos climáticos extremos registrados no último sábado, 7 de março de 2026, acenderam um sinal vermelho definitivo para a região do Grande ABC. Com São Bernardo do Campo registrando o maior volume de chuva de todo o estado de São Paulo, a infraestrutura urbana foi levada ao limite, evidenciando que, embora gestões atuais venham implementando medidas de contenção,
O passivo histórico de planejamento urbano ainda cobra um preço alto da população. Enquanto os termômetros oscilam e o céu desaba, São Bernardo do Campo registrou o maior volume de chuva de todo o Estado de São Paulo. O resultado? O que já conhecemos tragicamente bem: quedas de árvores, apagões prolongados, avenidas transformadas em rios e o medo estampado no rosto de cada cidadão.
Mas a pergunta que ecoa no Grande ABC, entre os escombros e a lama, é uma só: O ABC está pronto para desastres ou estamos apenas esperando a próxima tragédia com data marcada?
Como consultor de políticas públicas, afirmo sem medo: o que vivemos é o colapso de um modelo urbano que ignorou a natureza por décadas. O ABC cresceu de costas para seus rios e sobre suas várzeas. A falta de planejamento não é um erro do passado; é uma urgência do presente. Cidades impermeabilizadas não respiram e, mais grave, não absorvem.
O asfalto que cobre nossas ruas é o mesmo que empurra a água para dentro das casas. Estamos diante de uma emergência climática que não aceita mais paliativos. Não basta erguer muros; é preciso repensar o território.
Para entender a gravidade do cenário, é fundamental observar os dados do CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas). O órgão é o braço tecnológico das prefeituras e do governo estadual responsável por monitorar, em tempo real, as condições meteorológicas e os índices pluviométricos. O CGE atua como o "sistema nervoso" da Defesa Civil, emitindo alertas de alagamentos, estado de atenção e monitorando o transbordamento de córregos e rios.
De acordo com o balanço mais recente, a concentração de chuva em curto espaço de tempo superou as médias históricas, o que sobrecarrega qualquer sistema de drenagem convencional que não tenha sido projetado para a nova realidade da emergência climática global.
As tempestades de março de 2026 resultaram em:
Recorde Pluviométrico: São Bernardo do Campo liderou o ranking estadual de volume de água.
Impacto Urbano: Dezenas de quedas de árvores, interrupção no fornecimento de energia e múltiplos pontos de alagamento intransitáveis.
O Desafio Técnico: Especialistas apontam que o problema central reside na microdrenagem — o sistema de bueiros, galerias e ramais que levam a água das ruas até os canais principais (macrodrenagem).
Ainda que a gestão municipal atual tenha investido em obras de contenção e manutenção, a falha é estrutural e histórica. Por décadas, o ABC permitiu a ocupação de várzeas e a impermeabilização excessiva do solo. Hoje, mesmo com o esforço das prefeituras, o sistema de microdrenagem se mostra insuficiente para escoar o volume de água das tempestades severas modernas.
A análise do cenário atual indica que não há mais espaço para soluções graduais. É necessário um aporte massivo de investimentos em:
Revisão da Malha de Microdrenagem: Ampliação da capacidade de captação de água em bairros periféricos e centros comerciais.
Soluções Baseadas na Natureza: Criação de jardins de chuva e calçadas drenantes para reduzir a velocidade da água.
Engajamento Comunitário: A falta de consciência ambiental — especificamente o descarte irregular de resíduos que entopem as galerias — potencializa os efeitos das cheias.
"O que vemos hoje é o resultado de gestões de várias décadas que não priorizaram a adaptação climática. O prefeito atual e as administrações vizinhas estão agindo, mas o volume de investimento necessário para reverter o atraso histórico exige urgência e parcerias robustas com o Governo Estadual e Federal", aponta a consultoria de políticas públicas ambientais da região.
A pergunta que fica para os próximos dias, dado o alerta de continuidade das chuvas, não é apenas se os piscinões suportarão, mas quão rápido o ABC conseguirá modernizar suas cidades para que a vida humana e o patrimônio do cidadão não fiquem à mercê do próximo temporal.





