A primavera de 2026 começou nesta terça-feira, 22 de setembro, às 21h05, pelo horário de Brasília. Mas diferente das primaveras anteriores, esta chega com um aviso que meteorologistas, climatologistas e órgãos federais raramente emitem com tanta clareza: prepare-se para o pior.
O El Niño em curso tem mais de 90% de probabilidade de atingir a categoria de muito forte no trimestre de outubro a dezembro, segundo o Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos — a NOAA. Mais grave: há 75% de chance de que este seja o El Niño mais intenso já registrado desde 1950. Não desde o ano passado. Desde 1950.
O Instituto Nacional de Meteorologia, o CPTEC do Inpe e a Funceme publicaram nota técnica conjunta confirmando o cenário. A conclusão é unânime entre os órgãos: esta não é uma primavera normal.
El Niño é o aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica global e muda o comportamento do clima em diferentes partes do planeta — intensificando secas onde normalmente chove, e aumentando chuvas onde o solo já está saturado.
No Brasil, o fenômeno tem efeitos bem documentados e assimétricos: enquanto o Sul do país tende a ficar mais úmido e sujeito a temporais, o Norte e o Nordeste sofrem com seca prolongada. O Centro-Oeste e o Sudeste ficam em uma faixa intermediária — com calor acima da média e chuvas concentradas e intensas em vez de regulares.
O que torna o evento de 2026 diferente de todos os anteriores não é apenas a intensidade, mas o momento. O Brasil está entrando nesta primavera com a memória ainda fresca das inundações do Rio Grande do Sul em 2024, das secas amazônicas que fecharam rios em 2023 e das ondas de calor que bateram recordes em São Paulo e no Centro-Oeste nos últimos dois anos. O sistema climático não teve tempo de se recuperar. E agora o fenômeno mais forte da história moderna está chegando.
Sul do Brasil — risco máximo de enchentes e tempestades severas
Na Região Sul, a previsão é de chuva acima da média em todos os estados, com os maiores volumes concentrados no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, onde os acumulados podem superar a média histórica do trimestre em até 200 milímetros. Para quem viveu 2024 no Rio Grande do Sul, esse número dispensa comentário. TNH1
Na Região Sul também devem se formar Complexos Convectivos de Mesoescala — aglomerados de tempestades em formato circular que aumentam significativamente a probabilidade de chuvas acima da média na região. Essas estruturas meteorológicas são responsáveis pelos temporais que chegam de madrugada, sem aviso, e causam alagamentos em questão de horas. Impactto News
O período de maior intensidade do Super El Niño deve ocorrer entre a primavera de 2026 e o verão de 2026/2027 — justamente quando o Sul do Brasil entra naturalmente em uma época mais quente e úmida, aumentando a quantidade de energia disponível para a formação de tempestades. GMC Online
Sudeste — calor extremo e chuvas concentradas
O aquecimento progressivo da atmosfera deve favorecer a ocorrência de ondas de calor e aumentar o contraste entre massas de ar quente e frentes frias, condição que pode provocar a formação rápida de tempestades severas. São Paulo e Mato Grosso do Sul estão entre os estados que podem registrar os maiores volumes de precipitação do Sudeste — chuvas intensas concentradas em poucas horas, que os sistemas de drenagem urbana não foram projetados para suportar. CNN Brasil
Norte e Nordeste — seca severa e risco de incêndios
No Norte, o déficit deve ser generalizado, com valores até 200 milímetros abaixo da média em Roraima, no norte-nordeste do Amazonas e no oeste e centro-sul do Pará. Em uma região que já sofreu com queimadas históricas em 2024, a combinação de seca extrema com calor acima da média é uma equação de alto risco para incêndios florestais, queda na produção de energia hidrelétrica e colapso do abastecimento de água em comunidades ribeirinhas. TNH1
As regiões Norte e Nordeste têm maior potencial para chuvas irregulares, resultando em déficit hídrico em grande parte desses territórios, com possibilidade de predomínio de seca também no centro-norte de Mato Grosso e no norte de Goiás. Impactto News
Enchentes e deslizamentos
Chuvas acima da média em regiões com histórico de alagamentos, encostas ocupadas irregularmente e sistemas de drenagem deficientes criam as condições para desastres. Os episódios do RS em 2024 e da Serra Gaúcha, do litoral paulista e da Baixada Santista nos anos anteriores mostraram que a velocidade com que uma chuva extrema se transforma em tragédia é de horas — não de dias.
Moradores de áreas de risco devem identificar as rotas de saída de suas casas, verificar junto à Defesa Civil local se sua região está em área de atenção e manter um plano familiar de evacuação atualizado.
Ondas de calor
As temperaturas devem ficar acima da média climatológica em praticamente todo o Norte e no Nordeste, com alguns estados nordestinos podendo registrar desvios próximos ou acima de 2°C acima da média histórica. O calor também deve predominar no Centro-Oeste e no Sudeste. A Gazeta
Ondas de calor matam — especialmente idosos, crianças pequenas e trabalhadores em ambientes externos ou sem ventilação. Hidratação constante, evitar exposição ao sol entre 10h e 16h e identificar os sintomas de insolação e golpe de calor são medidas básicas que salvam vidas.
Seca e abastecimento de água
No Norte e Nordeste, a redução dos níveis dos rios afeta diretamente o transporte fluvial, a geração de energia elétrica e o abastecimento de água em comunidades que dependem dos mananciais. Economizar água durante o período seco não é só boa prática — é necessidade coletiva.
Qualidade do ar
Com a seca severa no Norte e a temporada de queimadas ainda ativa, a fumaça que cobriu cidades do Sudeste em 2024 pode se repetir em escala ainda maior. Pessoas com problemas respiratórios, idosos e crianças devem ficar atentos aos índices de qualidade do ar e evitar exposição em dias de fumaça intensa.
A janela de preparação existe. E ela é agora — nas semanas iniciais da primavera, antes que os volumes de precipitação se intensifiquem a partir de outubro.
Para quem mora em área de risco de enchente ou deslizamento:
Cadastre-se no sistema de alertas da Defesa Civil do seu município. O número nacional é o 199. O sistema envia avisos por SMS quando há risco iminente na sua região. Identifique para onde ir se precisar sair às pressas. Não espere a água subir para decidir.
Para quem mora no Sul do Brasil:
Verifique o estado das calhas e ralos da sua casa. Limpe bocas de lobo próximas à sua residência. Saiba onde ficam os abrigos temporários do seu município. Mantenha documentos importantes em local de fácil acesso.
Para quem mora no Norte e no Nordeste:
Armazene água potável de forma segura. Evite queimadas em qualquer circunstância — a multa é severa e o risco de propagação em período de seca extrema é altíssimo. Fique atento às orientações dos órgãos de saúde sobre qualidade da água em períodos de estiagem prolongada.
Para toda a população:
Tenha lanternas, pilhas e água potável em casa. Carregue a bateria do celular antes de temporais anunciados. Não atravesse ruas ou estradas alagadas — menos de 30 centímetros de água em movimento são suficientes para arrastar um veículo. E siga as redes sociais e canais oficiais da Defesa Civil, do Inmet e da Cemaden — os alertas chegam antes da chuva.
A Coordenadoria Estadual da Defesa Civil do Paraná intensificou a preparação dos municípios, com orientações principalmente para localidades com histórico de alagamentos, enchentes, deslizamentos e outros problemas relacionados ao excesso de chuva. As atividades incluem ações preventivas para melhorar a drenagem urbana, atualização dos Planos de Contingência e preparação das comunidades localizadas em áreas consideradas vulneráveis. GMC Online
Outros estados também estão reforçando seus sistemas de alerta. Mas a preparação institucional só funciona quando a população também está preparada. O aviso de evacuação serve de pouco quando as pessoas não sabem para onde ir ou subestimam a velocidade com que uma enchente avança.
O El Niño de 2026 não é uma surpresa. Os modelos climáticos o previam há meses. Os órgãos meteorológicos publicaram suas notas técnicas. Os alertas estão sendo emitidos.
O que vai determinar o tamanho da tragédia — ou a dimensão de uma resposta bem-sucedida — não é a intensidade do fenômeno. É o grau de preparação das comunidades, municípios, empresas e famílias que vão enfrentá-lo.
O clima está mudando. O Super El Niño chegou. A primavera começou hoje.
Canais de alerta: Defesa Civil Nacional — 199 | Inmet — inmet.gov.br | Cemaden — cemaden.gov.br
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